NICHOLAS RAY
 

 

NICHOLAS RAY
cineasta americano (1911-1979)

"Não há filme seu, mesmo daqueles menos conseguidos, que não contenha um plano de cortar a nossa respiração."

Poderá Nicholas Ray ser considerado um rebelde? Claro que sim. E não apenas porque o seu filme mais famoso, que em Portugal se chamou A Fúria de Viver, tenha sido Rebel without a cause. Rebelde de facto em Hollywood, Ray é mais lembrado hoje pelos seus êxitos do que pelos numerosos falhanços – a sua obra foi já descrita como uma paisagem em ruínas povoada por marcas de génio –, mais recordado pela sua obra do que pela sua vida, marcada sempre por uma espécie de vertigem de autodestruição. Rejeitado pelo cinema americano, viveu algum tempo na Europa, onde se tornou uma espécie de ícone da Nouvelle Vague, morrendo em 79, após ter filmado os seus últimos dias em Lighting over Water- Nick’s Movie, uma longa-metragem coreografada por Wim Wenders.

Nascido como Raymond Nicholas Kienzle em 1911, numa pradaria de Wisconsin, neto de um emigrado alemão, partiu para Chicago, e depois para Nova Iorque, na época da grande depressão. Iniciou-se então no teatro de vanguarda, tornando-se grande amigo de Elia Kazan. Vivia-se o período do New Deal e Ray viaja nessa época por diversas comunidades rurais do país, gravando músicos locais. Torna-se realizador de um programa de rádio, então único, no qual era possível ouvir a voz da América profunda, a começar pela de Woodie Guthrie. Parte pouco depois para Hollywood, descobrindo o cinema, como assistente de Kazan, em A Tree grows in Brooklyn (1945).

O seu primeiro filme, They live by Night (1948), mesmo que o cenário seja o de um "vulgar" filme negro, mostra já alguma coisa de novo. O herói, Farley Granger, tem uma fragilidade adolescente, procurando fugir ao mesmo tempo à polícia e ao bando de gangsters que era afinal a sua única família. É um filme "de urgência", de fuga. Longe do asfalto das cidades, trata-se de um road-movie, de um filme de estrada, que materializa uma procura das raízes no coração da América mais profunda. O romantismo de um sonho adolescente do qual apenas é possível acordar através da morte. Um filme-chave que dará o tom a toda a obra de Nicholas, que a partir daí permanecerá igual a si próprio em quase todos os filmes.

Ray subverte entretanto os géneros estabelecidos. Os seus heróis masculinos são fracos, neuróticos, muitas vezes fisicamente débeis, procurando sempre fugir deles próprios. As mulheres, quase sempre, são o seu apoio. O par emblemático da sua obra é o do cow-boy errante Sterling Hayden e da cantora de saloon Joan Crawford (Johnny Guitar, 1974). Seja a realizar westerns (Johnny Guitar ou The True Story of Jesse James, 1957), filmes negros (Knock on any Door, 1949, e Party Girl, 1958), filmes "sociais" (Rebel without a Cause, 1955), "dramas psicológicos" (In a Lonely Place, 1950 e Bigger than Life, 1956), um filme de guerra (Bitter Victory, 1957) ou até uma vida de Jesus (King of Kings, 1961), Ray conta sempre a mesma história: a de um homem fraco, humano, demasiado humano, que procura escapar aos seus demónios, e encontrar o repouso, a "casa".

Os filmes de Ray passam ao lado dos valores de uma América tradicional. Não será por acaso que se interessará pelas minorias raciais (ciganos de Hot Blood, 1956, ou esquimós de The Savage Innocents, 1960), ou que realizou aquele que terá sido o primeiro filme ecológico (Wind across the Everglades, 1958). O seu trabalho contribuiu, por outro lado, também para a fragilização dos "géneros" que hoje nos é natural. O seu cinema é um cinema do rasgo, do fragmento, do pequeno instante de emoção. Lança o plano contra a sequência, a ruptura contra a fluidez. Consegue comover o espectador através de uma simples mudança de plano. Daí, que importa que muitos dos seus filmes lhe tenham escapado, que não tenha sido sempre ele o responsável pela montagem, que tenha abandonado, por causa do alcool, algumas filmagens? A ruptura, o desequilíbrio, fazem parte da sua arte, participando de um lirismo que é muito pessoal. E não há filme seu, mesmo daqueles menos conseguidos, que não contenha um plano de cortar a nossa respiração.

 

FILMOGRAFIA

They Live By Night (1947)
A Woman’s Secret (1949)
Knock on Any Door (1949)
Born to be Bad (1950)
Um Lugar ao Sol (In a Lonely Place) (1950)
On Dangerous Ground (1951)
Flying Leathernecks (1951)
Sede de Viver (The Lusty Men) (1952)
Johnny Guitar (1954)
High Green Wall (1954) (curta para TV)
Juventude transviada (Rebel Without a Cause) (1955)
Hot Blood (1956)
Bigger Than Life (1956)
The True Story of Jesse James (1957)
Bitter Victory (1957)
Jornada Tétrica (Wind Across the Everglades) (1958)
Party Girl (1958)
Sangue sobre a neve (The Savage Innocents) (1960)
O Rei dos Reis (King of Kings) (1961)
55 dias de Pekin (55 Days at Peking) (1963)
Lightning Over Water
The Janitor (1974) (curta)
We Can’t Go Home Again (1976)
Marco (1978) (curta)

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