CARMEN MIRANDA
 
     
Galéria de imagens

Carmen Miranda. A Pequena Notável. The Brazilian Bombshell. Nome mágico. Mito. Hoje, apenas uma lembrança. Mas lembrança em tudo que nos cerca. Sua influência é sentida não só na música popular brasileira, como em outros ritmos do resto do mundo. A moda lançada por ela dos turbantes, dos sapatos de plataforma, das coloridas jóias de fantasia (os célebres balangandãs), coberta de plumas e paetê, mas de barriga de fora — tudo isso é hoje copiado pela juventude feminina e pelos gays e travestis, que sequer a conheceram, pois a maioria nem era nascida quando Carmen morreu, em 5 de agosto de 1955.

Ainda recentemente, a festejada cantora de rock, Madonna, confessou que suas roupas exóticas foram inspiradas em Carmen Miranda. Quem foi, afinal, essa artista tão diferente, tão revolucionária para a sua época e até para a atual?

Na verdade, nem era brasileira de nascimento. Como Carlos Gardel que, embora francês, tornou-se o rei do tango argentino, a nossa maior sambista nasceu em Portugal, na aldeia de Marco de Canavezes, perto do Porto, (ver foto) no dia 9 de fevereiro de 1909. Vinda para o Brasil ainda bebê (um ano de idade), Maria do Carmo Miranda da Cunha (seu verdadeiro nome) foi aluna de um colégio de freiras em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, mas não completou sequer o curso ginasial porque, por necessidade financeira da família (o pai, barbeiro; a mãe, servindo refeições em uma pensão), a menina precisou começar a trabalhar muito cedo, primeiro vendendo gravatas, depois, como balconista de uma loja de chapéus, (ver foto) onde aprendeu a bolar seus futuros adornos da cabeça. Já, então, fora rebatizada como Carmen por um tio que a achava tão exuberante como a heroína da ópera de Bizet e não se conformava com o pacato nome Maria do Carmo. Descoberta pelo compositor e violonista baiano ("sempre os baianos na minha carreira, terminando com o Caimmy!" (ver foto)), Josué de Barros, Carmen Miranda gravou três discos, sem grande repercussão, até atingir o sucesso total com a música de Joubert de Carvalho, Pra Você Gostar de Mim, que passou a ser conhecida como Taí. Lançado em janeiro de 1930, esse disco bateu todos os recordes da época, vendendo 35.000 exemplares em um mês (ver foto).

Depois disso, nunca mais Carmen Miranda deixou de brilhar. Fazia sucesso não só no Brasil — com gravações e shows ao vivo — como na Argentina (ver foto) e Uruguai, tornando-se a estrelíssima do "show business" sul-americano nos moldes internacionais impostos pelos americanos do norte, em Hollywood e na Broadway. Era inevitável, portanto, que viesse a conquistar também aquele tipo de público tão exigente.

Quando os artistas hollywoodianos Tyrone Power e Sonja Henie a viram se exibindo no Cassino da Urca (ver foto atual do cassino), já com a primeira fantasia de baiana idealizada por ela própria, ficaram tão encantados que a recomendaram ao empresário Lee Schubert, que não hesitou em contratá-la para ser uma das principais intérpretes da revista musical Streets of Paris, montada no Broadhurst Theatre, em plena Broadway (ver foto), também com a dupla cômica Abbott & Costello e o cantor francês Jean Sablon. A figura — já carismática — de Carmen Miranda tomou de assalto o público nova-iorquino, que nunca havia visto algo igual: uma exuberante criatura, exoticamente vestida, "cantando" com as mãos, com os olhos, com os pés e com os quadris, pois ninguém entendia suas palavras em português (ela ainda não falava inglês) e, já naquela época, foi considerada "a rainha da comunicação internacional". As lojas da luxuosa Quinta Avenida substituíram as criações de Dior e Chanel pelas fantasias de baiana de Carmen, seus turbantes, sapatos e balangandãs, com bons "royalties" para a cantora brasileira, já, então, carinhosamente apelidada pela imprensa nova-iorquina de "The Brazilian Bombshell" (ver foto).

Ao contrário de diversas traduções, "bombshell" não quer dizer "bomba" em português — na gíria americana, "bombshell" significa uma "explosão", mas no sentido de uma grande surpresa — então, a tradução certa seria "A Grande Surpresa Brasileira" ou "A Explosão Brasileira". No Brasil, anos antes, recebera outro apelido, A Pequena Notável, que lhe fora dado pelo locutor César Ladeira, da extinta Mayrink Veiga, (ver foto) e que pegou de tal maneira, que ela passou a ser assim apresentada nos seus shows.


Em Hollywood, a nossa pequena notável só viveu mais quatro meses. Mas quatro meses de intensa alegria, como testemunhei. Acompanhei-a a Las Vegas para a inauguração do Cassino New Frontier (ver foto), onde ela ficou quatro semanas, prorrogação do contrato de duas, diante do estrondoso sucesso. Depois, embora tivesse quebrado o polegar em uma queda da escada da sua casa — mesmo engessada, embarcou para uma temporada na melhor casa noturna de Havana, em Cuba: a Tropicana. Este cassino obrigava os artistas a cantarem ao ar livre, sob as palmeiras tropicais.

Foi mais um problema para Carmen que, devido à umidade local, apanhou uma terrível bronquite. De volta à Califórnia, porém, teve uma agradável surpresa: a CBS-TV convidou-a para ter seu próprio programa semanal de televisão, intitulado The Carmen Miranda Show, no qual teria como galã o velho amigo Dennis O'Keefe, que faria um marinheiro americano um tanto ingênuo, casado com a "explosão brasileira", que vivia "aprontando" coisas.

Um gênero parecido com o delicioso I Love Lucy, de Lucille Ball. Mas, antes disso, Carmen concordou em gravar o Jimmy Durante Show (ver foto), cujo roteiro adorara, escrito especialmente para ela, como "a Carmen Miranda do Brasil", não como as Conchitas e Doritas que fazia por exigência do público que aprendeu a amá-la assim, latinamente explosiva. Assim, na noite de 4 de agosto de 1955, das 19 às 22 e 30 horas, nos estúdios da Desilu, em Gower Street, nossa maior estrela apresentou-se, pela última yez, perante um grande auditório e os convidados especiais: seu marido Dave, sua mãe Dona Maria Emília, a Vice-Consulesa do Brasil em Los Angeles Rosa Maria Monteiro e eu mesma. E, sempre brasileiríssima, Carmen cantou o baião Delicado em português.

Durante essa gravação, houve um momento em que ficou com falta de ar e quase desmaiou, apoiando-se em Jimmy Durante. Mas não deu importância ao incidente, achando que era devido aos fortíssimos refletores, embora conste — da nossa gravação em fita-cassete — sua queixa a Durante: "I’m out of breath!" (Estou com falta de ar!). Após o show, com ela ainda vestida com o tailleur vermelho favorito (ver foto) (e com o qual Dave insistiu que fosse enterrada), fomos para sua casa tomar o clássico "night-cap", o drinque do fim da noite, da comemoração de mais um bem sucedido dia de trabalho. Despedimo-nos dela por volta da 1 hora de 5 de agosto.

O resto dos convidados ainda ficou mais um pouco. Dave foi dormir antes, no quartinho de costura, para não perturbar o ambiente festivo de Carmen porque ela tinha o seu ritual antes de se deitar. Lá pelas <2 horas, a pequena notável, Brazilian Bombshel, foi para o seu quarto de vestir para retirar a maquilagem. Só que não teve tempo para isso e nem para tomar os Nembutals para o merecido sono. Dormiu para sempre. Na manhã seguinte, David Sebastian encontrou-a morta, um lenço de papel na mão e o pote de cold-cream ao seu lado, já arroxeada pelo ataque cardíaco. Fora vítima de um enfarte. Se fosse hoje, talvez ainda houvesse tempo para um marca-passo ou colocação de pontes de safena. Mas, assim como fora salva pela sulfa, Carmen não o seria pela ciência moderna, desse tipo de cirurgia. E a esfuziante Carmen Miranda (ela detestava que seu nome fosse escrito com "m"...), que adorava viver cercada de gente, que não me deixava sair antes que começasse a adormecer...

Morreu sozinha, como tantos outros mitos de Hollywood. Até nisso, ela se identificou com eles. Tinha apenas 46 anos. Mas, graças a Deus — ao nosso Deus — atingiu a imortalidade na sua brilhante carreira. No seu funeral, no Rio de Janeiro, em 12 de agosto de 1955, o famoso carrilhão da Mesbla, na Cinelândia — perante quase um milhão de pessoas acompanhando o féretro (ver foto) — tocou o dia inteiro Taí, Adeus Batucada, Boneca de Piche, O Que é Que a Baiana Tem? e diversas outras músicas de Carmen, terminando com a tradicional Ave Maria de Schubert (uma das favoritas dela), que era executada todas as tardes, às 18 horas. Sete anos depois, no mesmo dia 5 de agosto, morria outro mito de Hollywood: Marilyn Monroe, que deixou admiradores no mundo inteiro. Como Carmen, ela foi um ídolo de homens, mulheres e crianças por causa do seu carisma internacional e marcante personalidade. Fala-se muito em Marilyn nos Estados Unidos, mas, até hoje, quando se chega nos States e se diz que é brasileiro, os americanos ainda perguntam, jovens ou velhos: "É da terra da Carmen Miranda?".

 
 

FILMOGRAFIA

NO BRASIL:

1933 — A VOZ DO CARNAVAL
1935 — ALÔ, ALÔ, BRASIL
1935 — ESTUDANTES
1936 — ALÔ, ALÔ, CARNAVAL
1939 — BANANA DA TERRA

NOS ESTADOS UNIDOS:

1940 — SERENATA TROPICAL ("DOWN ARGENTINE WAY")
1941 — UMA NOITE NO RIO ("THAT NIGTH IN RIO")
1941 — ACONTECEU EM HAVANA ("WEEK-END IN HAVANA")
1942 — MINHA SECRETÁRIA BRASILEIRA ("SPRINGTIME IN THE ROCKIES")
1943 — ENTRE A LOURA E A MORENA ("THE GANG’S ALL HERE)
1944 — QUATRO MOÇAS NUM JEEP ("FOUR JILLS IN A JEEP")
1944 — SERENATA BOÊMIA ("GREENWICH VILLAGE")
1944 — ALEGRIA, RAPAZES! ("SOMETHING FOR THE BOYS")
1945 — SONHOS DE ESTRELA ("DOLL FACE")
1946 — SE EU FOSSE FELIZ ("IF I’M LUCKY")
1947 — COPACABANA ("COPACABANA")
1948 — O PRÍNCIPE ENCANTADO ("A DATE WITH JUDY")
1950 — ROMANCE CARIOCA ("NANCY GOES T0 RIO")
1953 — MORRENDO DE MEDO ("SCARED STIFF")

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